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Atlas em alta resolução de eventos extremos da temperatura da superfície do mar em habitats costeiros do Brasil
Diante do avanço contínuo das mudanças climáticas, eventos extremos de temperatura vêm se tornando uma ameaça crescente para a biodiversidade marinha. Com o objetivo de compreender como esses fenômenos afetam os ecossistemas costeiros brasileiros, pesquisadores do laboratório de Monitoramento Oceânico por Satélites (MOceanS), da Divisão de Observação da Terra e Geoinformática (DIOTG), Coordenação-Geral de Ciências da Terra (CGCT) do INPE, publicaram um estudo que estabelece uma linha de base histórica de 40 anos sobre a exposição de habitats costeiros a ondas de calor e de frio marinhas.
O artigo intitulado “A multi-decadal baseline of marine temperature extremes across Brazil's coastal foundation habitats”, foi publicado na revista Climatic Change e apresenta o primeiro atlas em alta resolução desses extremos ao longo da costa brasileira. O trabalho também resultou no desenvolvimento da Aplicação WebGIS interativa MARTEX-BR, que permite visualizar e explorar os padrões espaciais e temporais desses fenômenos. O artigo está disponível em: https://doi.org/10.1007/s10584-026-04239-9.
O trabalho foi realizado em colaboração internacional com as instituições japonesas Institute of Science Tokyo e a Japan Agency for Marine-Earth Science and Technology (JAMSTEC). A pesquisa foi liderada por Gabriel Lucas Xavier da Silva, egresso do programa de Pós-Graduação em Sensoriamento Remoto (PG-SER) do INPE, e contou com a colaboração de pesquisadores do INPE, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (ESALQ/USP), do Institute of Science Tokyo e da JAMSTEC. São co-autores do estudo Milton Kampel (INPE/CGCT/DIOTG/MOceanS), Vitor Galazzo de Paiva (INPE/CGCT/DIOTG/MOceanS), Rubens Saito Mira Braz (ESALQ/USP), Ahmed Eladawy (JAMSTEC) e Takashi Nakamura (Institute of ScienceTokyo).
Mapeamento em Alta Resolução
O estudo mapeou eventos extremos de temperatura da superfície do mar em resolução espacial de 1 km, abrangendo mais de 119 mil pontos ao longo de toda a costa brasileira. A análise contemplou oito dos principais habitats costeiros do país, incluindo recifes de coral, bancos de gramas marinhas e rodolitos, investigando o histórico de ocorrência desses eventos, suas tendências ao longo das últimas quatro décadas e os fatores associados às anomalias termais observadas. Os resultados revelaram uma forte heterogeneidade espacial, com diferenças marcantes entre regiões e tipos de habitat. De forma geral, as ondas de calor marinhas apresentaram uma intensificação expressiva ao longo do período analisado. A frequência e a duração desses eventos aumentaram na maior parte dos habitats, com destaque para a última década, quando a ocorrência de ondas de calor classificadas como “Fortes” cresceu quase 190%.
Mais da metade das áreas monitoradas apresentou tendências de aumento tanto na frequência quanto na duração das ondas de calor. Os impactos mais severos foram observados nos recifes de coral, onde a frequência desses eventos aumentou, em média, 1,5 eventos por década e sua duração 3,5 dias por década. Nos bancos de gramas marinhas, os aumentos chegaram a 2 eventos e 5 dias por década, respectivamente. Em contraste, as ondas de frio marinhas apresentaram uma redução generalizada, atingindo cerca de um terço dos níveis observados no início da série histórica. Apesar dessa tendência de declínio, habitats costeiros da região Sul registraram episódios recentes de frio extremo com intensidades recordes (anomalias de até -4,5 °C) e duração excepcionalmente longa, alcançando até 160 dias consecutivos.
Plataforma MARTEX-BR
Como desdobramento da pesquisa, os autores desenvolveram o MARTEX-BR, uma plataforma WebGIS interativa e de dados abertos que permite visualizar, explorar e recuperar informações sobre a ocorrência de eventos extremos de temperatura em habitats costeiros brasileiros. A ferramenta disponibiliza dados e métricas em escala local, ampliando o acesso às informações geradas pelo estudo para pesquisadores, gestores públicos e demais interessados. O atlas e a plataforma foram concebidos para apoiar iniciativas de monitoramento ambiental e adaptação às mudanças climáticas, fornecendo subsídios para ações de manejo ambiental, avaliação de riscos ecológicos e planejamento de áreas prioritárias para conservação marinha.
O MARTEX-BR está disponível para acesso público em: martex.coletivo.eco.br.
Em consonância com os princípios da ciência aberta, todos os dados produzidos pelo estudo também estão disponíveis para download na plataforma Zenodo (https://doi.org/10.5281/zenodo.17577678) e serão incorporados ao Programa Base de Informações Georreferenciadas (BIG) do INPE (https://data.inpe.br/).
Figura: Visão geral dos habitats costeiros e dos eventos extremos de temperatura da superfície do mar ao longo da costa brasileira. O painel (A) apresenta a distribuição espacial dos oito principais habitats costeiros analisados no estudo, com base no mapeamento de Magris et al. (2021): recifes de briozoários (Bryozoan reef), recifes de coral (Coral reef), bancos de Halimeda (Halimeda bank), florestas de algas (Kelps), recifes mesofóticos (Mesophotic reef), bancos de rodolitos (Rhodolith bed), costões rochosos (Rocky shore) e pradarias de gramas marinhas (Seagrass meadow). Os painéis (B) e (C) mostram a frequência média anual de ondas de calor marinhas (MHWs) e ondas de frio marinhas (MCSs), respectivamente. Os painéis em destaque apresentam ampliações do Complexo Recifal de Abrolhos, permitindo visualizar os padrões espaciais em alta resolução. Os painéis (D) e (E) apresentam as séries temporais das médias desses eventos ao longo dos 40 anos analisados (1985–2025). As ecorregiões marinhas, definidas segundo Spalding et al. (2007), estão identificadas pelas siglas: RGR (Rio Grande), SEST (Sudeste do Brasil), EST (Leste do Brasil), TMV (Trindade e Martim Vaz), NST (Nordeste do Brasil), FNA (Fernando de Noronha e Atol das Rocas) SPSP (Ilhas de São Pedro e São Paulo) e AMZ (Amazônia).
